A MACAÚBA, AS QUEBRADEIRAS E O CINECLUBISMO

Cine Mais Cultura e o novo cineclubismo brasileiro.


Em junho deste ano de 2009, mandamos um projeto para o Cine Mais Cultura, a pedido de Marcelo Silva: tendo a Public como produtora e a Associação de Mulheres Extrativistas do Babaçu como proponente. Já em agosto, eu e a Presidente da Associação estávamos em Belém pra sermos oficinandas. Porque o programa não lhe dá o peixe: dá a rede e ensina a pescar. E depois de catar algumas iscas, eu e Tharson Lopes (Canto das Artes) fomos para o Rio de Janeiro, onde aconteceu o Encontrão de Oficineiros, de 11 a 13 de dezembro.

A primeira oficina do Cine Mais Cultura realizou a proeza de juntar iniciativas cineclubistas de todos os estados da região norte. A segunda juntou iniciativas de todo o país. “Não me lembro de nenhuma Jornada que tivesse representação dos 26 estados e do DF”, foi o quê disse Antônio Claudino de Jesus, Presidente do CNC – Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros.

Este encontro foi organizado pra que em 2010 todos os estados brasileiros possam ter editais específicos. A meta do programa é que existam 2.000 cineclubes instalados no país até o final do próximo ano. E como a Jornada de Reorganização do Movimento Cineclubista (o passo decisivo na articulação do movimento após a ditadura militar e após a cisão em 84 por causa do filme em 35 mm) só apareceu em 2003; esta é uma meta ambiciosa e, ao mesmo tempo, completamente apropriada aos tempos de convergência digital.

Da lista do CNC de hoje participam 1.000 cineclubistas, e ao lado da Programadora Brasil, o Conselho é um dos braços que fortalecem o programa Cine Mais Cultura. A Programadora, por sua vez, distribui mais de 140 programas aos Cines. Contudo, o Cine Mais Cultura é um programa em construção. É uma articulação que emergiu das demandas de base: filmes são pra ser vistos. O que falta ao movimento, atualmente, é poder afirmar quantas pessoas vêem os filmes e quem são estas pessoas.

“Nunca tivemos uma base de dados confiável para o cinema comercial do Brasil, quiçá para o não-comercial”, foram as palavras do cineasta Roberval Duarte. Mas se todos os Cines enviarem seus relatórios detalhada e regularmente, esta base estará consistente o suficiente para o Cineclubismo se consolidar, finalmente, como pauta imediata das Políticas Públicas, em todas as esferas de governo. Portanto, durante a oficina, acesso e relatório eram as palavras-chave. Porque é tão necessário difundir quanto entender e aprimorar o processo de difusão.

“Não estou aqui pra escrever essa história. Estou aqui para articular que os estados a escrevam”, foi a pontuação feita por Sáskia Sá, Diretora de Memória do CNC. E, em resposta, os cineclubistas dos estados do norte ali presentes escreveram uma Carta em prol da articulação regional. A leitura da Carta foi gravada em vídeo e a entregamos ao Coordenador Executivo do Cine Mais Cultura, ao Secretário do Audiovisual e ao Presidente do CNC.

Estas três entidades se dispuseram a apresentar a Carta ao Ministério da Cultura e ao Ministério do Turismo. Uma vez que a Carta seja atendida, os cines buscarão parceiros estaduais: Fundações, ONGs, SESC, SEBRAE e a quem interessar possa. E em 2010, antes das eleições, será realizado o ENCONTRO REDE NORTE DE CINECLUBES, um evento inédito na história do cineclubismo regional.

Pois o novo cineclubismo brasileiro acredita que filmes são pra ser vistos, cineclubes são pra ser conhecidos e cineclubistas são pra ser ouvidos. “Gestão passa. Os exibidores ficam”, foram os dizeres de Rodrigo Bouillet, Coordenador de Rede do Cine Mais Cultura. Não teríamos dito melhor.

PRA CHEGAR AO CAROÇO: http://www.cinemaiscultura.org.br/


NOTAS MACAÚBAS:

Tharson Lopes e Betania Pontes estão à frente do Canto das Artes, projeto da

Associação Amigos da Cultura e do Meio Ambiente – Taquaruçu.

Desde 2004, plantando (e colhendo) cultura e ecologia.


A Macaúba entrevista MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU

Móveis Coloniais de A(ra)caju:
quando ser jipe é mais interessante do que ser mercedez-benz.

Há dois anos, eu não ia num show dos MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU, um dos grupos mais suados que a secura do planalto central já pariu. Dois anos é tempo, mas passa num estalo. Eis que em Palmas eu pude rever o show, e por duas vezes consecutivas: pra mim, era o que havia de mais interessante pra ser feito na cidade – e no estado – embora muitos tenham preferido se entocar numa caverna e escutar estacas batendo, ou ir a uma praia e beber até atolar-se na areia.

Ocorre que eu vim sem escalas do Rio pra Palmas, e passei mais de ano sem pôr os pés em Brasília. No feriado de junho, eu fui lá: reencontrei muita gente querida, mas a cidade não me disse nada. Parecia que aquele lugar nunca fizera parte de mim, e vice-versa. Eu não sabia se estava sofrendo uma crise de identidade ou se estava diagnosticando um tipo de autismo. Eu só sabia que era estranho, demasiado estranho.

Aí bastou uma apresentação dos MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU pra que eu superasse o conflito. Finalmente, deos, eu senti saudade de Brasília – a cidade, e senti deleite em ser “candanga” – a origem. Tudo voltou ao meu subjetivo como num trailer de ação: UnB, Beirute, Criolina, Água Mineral! Obrigada por isso, estimados conterrâneos.

Por outro lado, eu fiquei indignada com a quantidade (mínima) de gente que participou do show mais empolgante que passou pela cidade esse ano – não desmerecendo ilustres passageiros como O Teatro Mágico, O Cordel do Fogo Encantado, Racionais, MV Bill, dentre outros. Acontece que os dois primeiros embarcaram na estrondosa publicidade da Feira do Livro*, e os dois últimos pegaram carona no poderoso boca-a-boca dos rappers do setor norte. No caso MÓVEIS, quando faltavam quinze dias para o show, eu mandei um email ao Xande: eu ouvira um burburinho sobre a passagem deles em Palmas…

Foi dessa indignação súbita e de uma intenção remota que nasceu A MACAÚBA. Mesmo tendo dormido quatro horas, quando o dia estava na metade, eu tinha uma inquietude tal que, ou eu produzia alguma coisa, ou eu teria um infarto. E como eu não tenho nem trinta anos, achei que era mais razoável ir até a PUBLIC pedir pra que a Zelma e o Marcelo, meus estimados capitães, apoiassem a minha viagem. Obrigada pelo barco: navegar é preciso.

Às 19 horas, cinco dos meninos MÓVEIS estavam na produtora. Sentei com eles na mesa do café e… dei-me conta do quanto era indecente a proposta que eu estava prestes a fazer: uma entrevista pra um blog que não existia. Não vou mentir: fiquei vermelha, suei, passei a mão sobre o rosto três ou quatro vezes. Até um analfabeto em linguagem corporal, chamaria uma ambulância pra mim. Eles, no entanto, toparam.

Já no estúdio, deu pra relaxar mais. A entrevista não foi longa (ao menos do ponto de vista sinestésico) porque eles ainda passariam o som; mas foi o suficiente pra provocar algumas questões e iluminar algumas idéias. Ali, eu quis encontrar os MÓVEIS que recordava o meu coração, e o título de A Maior Banda Independente do Brasil pouco diz à memória afetiva. O que me marcou foi a garra e a disciplina de um bando de caras talentosos que perseguiram um objetivo comum: a vontade de tocar e de fazer música.

Porque tocar e fazer música são coisas diferentes. MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU é um projeto cultural vibrante, que se mantém na frequência do novo milênio: vai além da excelência e da irreverência de uma banda com 10 integrantes cujo som foi batizado de “Feijoada Búlgara”. Entre eles, não existe comodismo: o processo colaborativo é o regime de trabalho, e o artista é também produtor (e designer, e editor, e faxineiro – se preciso for). Além disso, a eles não basta levar a sua música tanto aos lugares mais badalados quanto aos mais inóspitos: MÓVEIS CONVIDA os mais e os menos cultuados pra tocarem na sua casa, dividindo o mesmo palco (e o mesmo hotel – se possível for).

Finalmente, são o que são até embaixo d’água: no segundo show em Palmas, eles tocaram pra menos de 100 pessoas, e tocaram com a energia de sempre. É claro que foi necessário um intervalo; e a primeira tentativa de fazer aquela roda com o público não deu certo. Mas com muito rebolado, os meninos reverteram o jogo e aqueceram o público. Ao final, eu estava tão feliz quanto estive na apresentação de 2007: quando o suadíssimo coletivo MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU abriu o show do GOTAN PROJECT na Concha Acústica, tocando pra cerca de 18.000 pessoas*.  Pra quem a língua não é barreira, uma boca banguela tampouco haveria de ser.

*dados SESC-DF

*5° Salão do Livro do Tocantins


Notas Macaúbas:

Zelma Coelho e Marcelo Silva (Marcelinho) são a diretora geral e o diretor criativo, respectivamente, da agência Public.

Publicidade é o carro-chefe da empresa, mas a cultura SEMPRE fez parte do comboio.


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