Três macaúbas literárias e um merchand

Dois meses viajando, cinco capitais: depois de um mês, eu estava com saudade até do calor daqui. Juro (não tenho nenhuma aspiração política). Encontrar o mar é sempre lindo, mas uma hora a gente começa a sentir falta da terra firme (e batida).  E daí eu voltei cheia de gás. Mas é claro que, um mês depois de voltar, nem tudo é balão.

Porém. Macáubas sempre hão de pintar por aí: sempre se tem o que mascar. Só nesse mês a volver, dois lançamentos. O mais novo livro de poemas de Gilson Cavalcante, gloriosamente ilustrado pela querida Maíra Bellini. Gilson é um cara que respira poesia, tem vida de poeta, tem sonhos de poeta. Taquaruçu é onde o homem repousa, mas a alma, ah. A alma alça vôos bem mais distantes. Seu trabalho anterior foi O Bordado da Urtiga. Todo livro seu é um deleite, e o último não é diferente. Anima Animus é pra quem já sentiu, em algum momento da vida, um acalentador aroma junguiano. Freud é para os caçadores. Jung é para os coletores. Gilson é pra mascar…até o caroço.


“… Divertida visão

mitocôndria do paraíso

ancestral que anima animus…”


Na sequência, fui convocada pra produzir o lançamento da MUGAMBI, a primeira graphic novel do Toca. O Silva ficou tão eufórico quando o Geuvar trouxe as HQs aqui na Public, que estava miguelando os exemplares. E como eu escreveria o release sem ler o livro? Arranquei um dele, quase aos tapas. Meio livro depois, eu estava realmente perplexa. Nunca pensei que uma coisa daquela fosse um filho de Geuvar Oliveira. Estamos falando de um dos criadores da Liga do Cerrado aqui: humor e crítica, sim, mas com luvas – máscaras, axilas… um porrete (no máximo). Mugambi é impetuoso.  O Tocantins em preto e branco, você em espanto. Não foi à toa que o cara empenhou dez anos nesse trabalho. Uma obra tão impactante não é feita da noite para o dia. Por mais que, sabemos, algum desses anos foram sugados pela falta de $ e não pela falta de inspiração.

HQ é o tipo de linguagem que não recebe investimento algum por aqui: não é que tem pouco investimento; não tem, zero reais. Então, é onde entra a Public: uma vez mais. Só que daqui pra frente é com vocês: Mugambi já es nas bancas e livrarias da cidade (Claps Town).


“…Vou tentar me controlar. Devo estar só impressionado pelo lugar…”


Pra ressoar o susto, quem aparece no lançamento? Thiago Ramos, o perturbado homem que escreve (e desenha e corta e cola) os fanzines Aperitivos. Fazia uma data que eu não via o sujeito, e foi muita emoção promover o encontro entre ele e Geuvar. Contudo. Não vou falar muito dele, não. Porque os vários aperitivos nos quais o maluco vem trabalhando serão lançados em breve. Aguardem…poupem suas mandíbulas pra mascarem muito.

E, pela primeira vez na História da Macaúba, falaremos de algo que (por pouco) NÃO aconteceu – estréia hoje no SESC. Merchandizinho básico, que uma Macaúba não pode ser tão retardatária quanto se diz: isso seria sistemático, deveras.

Com vocês, macaúbas, Na Palma dos Olhos.



Macaúbas Vindouras:

MASTER – death metal de raiz

Geuvar Oliveira - romancista do nanquin

Thiago Ramos – o palhaço triste


Não vou postar a foto do depurado-caça-onça. Deixo aqui, entretanto, o meu profundo sentimento de vergonha alheia.


O Chico e a Macaúba

O Chico está chegando! Dias 26, 27 e 28 de novembro, às 20 horas, no Cuíca (UFT).

Na sexta e no sábado de manhã, acontece o I Ciclo de Debates do Cinema Tocantinense de 8:30 às 11:30 horas no auditório B da UFT. No primeiro debate, o documentarista Marcelo Silva e o atual presidente da FCT, Sérgio Lorentino. No segundo debate, a estrela do Festival: Cícero Filho, o diretor de Ai que vida. À tarde, a partir de 16 horas, o cineasta estará na Public pra participar duma coletiva e à noite ele acompanha as exibições. No encerramento, o filme será exibido e as premiações acontecerão logo depois. Eu, Marcelinho e Tatiana Fagundes compomos o Júri Oficial.

Foram mais de 50 incrições de vídeos de todo o país. Muitas horas assistindo filme e correndo atrás de apoio. Uma canseira prazerosa, compartilhada com meu amigo Andrezão (Cinematoca). Essa é a oitava edição do Chico e, por conta disso, é uma referência dentre os festivais do norte. No diagnóstico setorial 2007 (indicadores 2006), o Festival Chico era o único festival do norte que já havia realizado seis edições.

Nesse sentido, agradecemos os seguintes apoios:

Public

Centro de Imagem e Som

Universidade Federal do Tocantins

Fundação Cultural do Tocantins

Redesat

Jovem Palmas

GM Turismo

Mumbuca

Mix Brasil



Isso é só um release. O textinho e videozinho marginais vem depois.

Uma coisa de cada vez porque o santo é de barro.


PRA CHEGAR AO CAROÇO: http://www.festivalchico2009.com.br/


MACAÚBA VINDOURA (sim, mais uma): ENTREVISTA COM CÍCERO FILHO


Notas Macaúbas:

André Araújo é documentarista, editor e produtor.

É também, como eu e Tati Fagundes, um dos coordenadores do CIM.

Dirigiu vários pocket movies e três curtas:

Under the rainbow

Enfim sós

Kitnet, o filme


A Macaúba entrevista MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU

Móveis Coloniais de A(ra)caju:
quando ser jipe é mais interessante do que ser mercedez-benz.

Há dois anos, eu não ia num show dos MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU, um dos grupos mais suados que a secura do planalto central já pariu. Dois anos é tempo, mas passa num estalo. Eis que em Palmas eu pude rever o show, e por duas vezes consecutivas: pra mim, era o que havia de mais interessante pra ser feito na cidade – e no estado – embora muitos tenham preferido se entocar numa caverna e escutar estacas batendo, ou ir a uma praia e beber até atolar-se na areia.

Ocorre que eu vim sem escalas do Rio pra Palmas, e passei mais de ano sem pôr os pés em Brasília. No feriado de junho, eu fui lá: reencontrei muita gente querida, mas a cidade não me disse nada. Parecia que aquele lugar nunca fizera parte de mim, e vice-versa. Eu não sabia se estava sofrendo uma crise de identidade ou se estava diagnosticando um tipo de autismo. Eu só sabia que era estranho, demasiado estranho.

Aí bastou uma apresentação dos MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU pra que eu superasse o conflito. Finalmente, deos, eu senti saudade de Brasília – a cidade, e senti deleite em ser “candanga” – a origem. Tudo voltou ao meu subjetivo como num trailer de ação: UnB, Beirute, Criolina, Água Mineral! Obrigada por isso, estimados conterrâneos.

Por outro lado, eu fiquei indignada com a quantidade (mínima) de gente que participou do show mais empolgante que passou pela cidade esse ano – não desmerecendo ilustres passageiros como O Teatro Mágico, O Cordel do Fogo Encantado, Racionais, MV Bill, dentre outros. Acontece que os dois primeiros embarcaram na estrondosa publicidade da Feira do Livro*, e os dois últimos pegaram carona no poderoso boca-a-boca dos rappers do setor norte. No caso MÓVEIS, quando faltavam quinze dias para o show, eu mandei um email ao Xande: eu ouvira um burburinho sobre a passagem deles em Palmas…

Foi dessa indignação súbita e de uma intenção remota que nasceu A MACAÚBA. Mesmo tendo dormido quatro horas, quando o dia estava na metade, eu tinha uma inquietude tal que, ou eu produzia alguma coisa, ou eu teria um infarto. E como eu não tenho nem trinta anos, achei que era mais razoável ir até a PUBLIC pedir pra que a Zelma e o Marcelo, meus estimados capitães, apoiassem a minha viagem. Obrigada pelo barco: navegar é preciso.

Às 19 horas, cinco dos meninos MÓVEIS estavam na produtora. Sentei com eles na mesa do café e… dei-me conta do quanto era indecente a proposta que eu estava prestes a fazer: uma entrevista pra um blog que não existia. Não vou mentir: fiquei vermelha, suei, passei a mão sobre o rosto três ou quatro vezes. Até um analfabeto em linguagem corporal, chamaria uma ambulância pra mim. Eles, no entanto, toparam.

Já no estúdio, deu pra relaxar mais. A entrevista não foi longa (ao menos do ponto de vista sinestésico) porque eles ainda passariam o som; mas foi o suficiente pra provocar algumas questões e iluminar algumas idéias. Ali, eu quis encontrar os MÓVEIS que recordava o meu coração, e o título de A Maior Banda Independente do Brasil pouco diz à memória afetiva. O que me marcou foi a garra e a disciplina de um bando de caras talentosos que perseguiram um objetivo comum: a vontade de tocar e de fazer música.

Porque tocar e fazer música são coisas diferentes. MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU é um projeto cultural vibrante, que se mantém na frequência do novo milênio: vai além da excelência e da irreverência de uma banda com 10 integrantes cujo som foi batizado de “Feijoada Búlgara”. Entre eles, não existe comodismo: o processo colaborativo é o regime de trabalho, e o artista é também produtor (e designer, e editor, e faxineiro – se preciso for). Além disso, a eles não basta levar a sua música tanto aos lugares mais badalados quanto aos mais inóspitos: MÓVEIS CONVIDA os mais e os menos cultuados pra tocarem na sua casa, dividindo o mesmo palco (e o mesmo hotel – se possível for).

Finalmente, são o que são até embaixo d’água: no segundo show em Palmas, eles tocaram pra menos de 100 pessoas, e tocaram com a energia de sempre. É claro que foi necessário um intervalo; e a primeira tentativa de fazer aquela roda com o público não deu certo. Mas com muito rebolado, os meninos reverteram o jogo e aqueceram o público. Ao final, eu estava tão feliz quanto estive na apresentação de 2007: quando o suadíssimo coletivo MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU abriu o show do GOTAN PROJECT na Concha Acústica, tocando pra cerca de 18.000 pessoas*.  Pra quem a língua não é barreira, uma boca banguela tampouco haveria de ser.

*dados SESC-DF

*5° Salão do Livro do Tocantins


Notas Macaúbas:

Zelma Coelho e Marcelo Silva (Marcelinho) são a diretora geral e o diretor criativo, respectivamente, da agência Public.

Publicidade é o carro-chefe da empresa, mas a cultura SEMPRE fez parte do comboio.


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