A Macaúba Elétrica e o Palhaço Tiste

Com todo o respeito, eu me referi a Thiago Ramos como um homem perturbado. Ele achou que eu tivesse publicado um segredo que, antes, estava em posse de poucos. Eu lhe disse que era ingenuidade da parte dele: bastam poucos minutos de convívio pra se ter certeza do alto grau de perturbação humana que existe no mundo.

Thiago Ramos tem macaúba, sim senhor. Macaúbas daquelas que explodem da pele e criam brotoejas: é impossível resistir à vontade de coçar. O cara tem essa coceira perene, essa inquietude eterna. É tão certo como o cinco feito de dois dois.

A sensação que tenho é a de que o sujeito realmente não conhece a distinção entre arte e vida. E não é a distinção que, de repente, falta a Lady Gaga. É a distinção que, em outros tempos, faltou a um grupo de Novos Baianos.

O Palhaço Triste não veste roupas, veste figurinos. Não importa se é pra ir à esquina, ir à faculdade, ou ir a um coquetel. Em casa não veste figurinos, mas veste todas as paredes de folhas e mais folhas de pura perturbação artística. São desenhos, charges, pensamentos, poemas, estudos. Todo um visual que se estabelece sobre o impulso elétrico. Consternada, eu encontrei uma Macaúba Elétrica.

E, então, percebi que estava no meio de uma zona de alta tensão. Estamos em um abril de ano eleitoral, e o céu está carregado de nuvens gorduchas: lá do altíssimo, elas espiam gorduchamente. Ou vem a chuva ou vem o raio.

O Palhaço Triste não agrada a gregos e troianos. Ele é palhaço, mas também é triste. Pra entrar no seu picadeiro, tem que passar pela sala. É uma entrada no inusitado e, portanto, requer o mínimo de suspense ou, talvez, constrangimento. E uma coisa é certa: os afoitos desistirão antes de se molharem e muito antes de se partirem ao meio. O que eu posso dizer? Eu to na chuva é pra molhar. Antes um raio na cabeça que a seca bastarda do sertão.

Quando não se consegue expulsar a arte do corpo, o jeito é deixar que ela entre e coma conosco na mesa. E a banda que acompanha o Palhaço Triste (Os Aspirais) vai abrir o show de ninguém menos que Arnaldo Antunes (por sua vez acompanhado de Edgard Scandurra). Hohoho.


Notas Macaúbas

Caio Brettas (Trade Rock) é um GRANDE parceiro deste blog. Eu pago de cineasta, mas ele. Ele é o cara.

Ainda produz teatro, dança, música. E tem o maior acervo de imagens do rock tocantino.

Atualmente, além de tudo isso, é assistente de produção de Marcelo Torres.


It’s all true: Xingu será rodado aqui no Toca esse ano.

Macaúba News

www.myspace.com/agostoderockfestival

O silêncio que precede o esporro*

Uma Macaúba tem sentimentos dúbios (quando não sensações paradoxais). Sobre o material do qual é feita a sua canoa, ela apenas sabe: se não gasta, também não destoa.

Seja qual for a madeira que faz o seu barco: tripulação não é vela e âncora não é proa.

Ressonância não é reticência.

Convenção ou conveniência: cintura na qual apertamos a vida.

Não se vive sem gordura, e não se vive sem proteína. Morre escultura, nasce parafina.

25 anos é coisa nenhuma. Ou 26 anos é coisa demais.


http://www.flickr.com/photos/eduardobelga

*in: O Rappa, 2003


Eu não conhecia a jornalista. Mas conhecia quem a conhecesse:em Claps Town não há quem seja completamente desconhecido. A garota era gerente do cerimonial: mas a vida não cabe no oficial. Não é que “será difícil substituí-la”. Gente não se substitui.


CLAP CLAP, town:

Leila Dias e Aluísio Cavalcante (Casa da Árvore):

http://www.semanaeducacaoearte.com.br/

Evento lindo de se ver. Quando um projeto tem investimento de fora: aí é outra história. O evento contou com várias parcerias, inclusive o apoio cultural do Festival Chico: eu organizei a Mostra Melhores do Chico especialmente pra Semana de Educação e Artes Digitais. E ainda: realizamos o DIÁLOGOS CINECLUBISTAS, para o qual veio o Coordenador de Rede do Cine Mais Cultura, Rodrigo Bouillet.

Wertem Nunes (Mostra em homenagem ao cineasta Leon Hirszman):

http://www.sescto.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=76&Itemid=1

Wertem é companheiro cineclubista e, também, é responsável pelo audiovisual do SESC daqui. Abriu o cinema apenas pra eu e uma amiga vermos a penúltima exibição da Mostra, e ainda estava contente. Só em Palmas se pode ter um cinema privê enquanto se assitie Eles não usam black tie.

Cecília Santos (Jornal O Estado):

http://estadoweb.com.br/jornal/player/index.php?l=01aaeed51949ed5b0059d09fd47c4fbe

Polêmicas à parte: REFLETIR sobre este blog, por meio de algumas perguntinhas, era algo do qual esta Macaúba que vos enrola (mas também vos entretem) estava precisando.


Macaúbas Estrangeiras:

http://www.velhoseusados.com/voto

www.myspace.com/hakkazora

AI QUE VIDA, MACAÚBA!

 

Nosso querido CHICO fez oito anos em 2009 e anda todo cheio de razão. Eu subi no barco, junto com Andrezão (Cinematoca) e Marcelinho. Porque uma Macaúba nunca deixa escapar uma navegação. Nosso convidado ilustre foi Cícero Filho, diretor do filme mais copiado e assistido dos últimos tempos por aqui: Ai que vida! Um filme–sensação porque abusa de todos os clichês que mais adoramos com sensibilidade e originalidade. E por original eu quero dizer inteiriço. Porque a vida doída doida moída louca está por inteiro ali, naquelas cidades de um interior tão meu ou seu, naquela linguagem tão própria quanto a minha ou a sua. Eu queria muito conhecer o responsável por aquele roteiro. E o guerreiro que fez do papel um filme.

Cícero é uma das criaturas mais doces e sossegadas que eu já tive o prazer de conhecer na vida produtiva: um maranhense/piauiense de 25 anos que já rodou 25 longas. Sim, eu fiz as contas: um longa por ano de vida, caso ele tivesse começado a produzir com um ano de idade. Mas não é pra tanto: foi aos doze. Houve um ano em que ele rodou quatro longas. Mas comercialmente mesmo, ele “só” conta três: AI QUE VIDA, ENTRE O AMOR E A RAZÃO, FLOR DE ABRIL. Este último deverá estrear em setembro de 2010. E não se trata de comédia, mas de drama. Que os clichês básicos esse garoto de ouro reserva à ficção. Jamais pra vida real. Veremos FLOR DE ABRIL no Festival Chico 2010.

PRA CHEGAR AO CAROÇO: http://tvmfilmes.zip.net/

E são muitas outras as promessas que se debruçam sobre o nosso CHICO. A FCT, agora na responsa de Sérgio Lorentino, firmou um compromisso público com o Festival. A grande janela dos curtas tocantinenses também está na pauta da ATCV, agora na responsa de Yonara Aniszewski. “Queremos trabalhar para, além de fomentar a produção, também aumentar os mecanismos de difusão dos nossos produtos. Aprimorar as parceiras com as fundações culturais do estado e município, incentivar a criação dos editais para o audiovisual, e buscar maior intercâmbio com outros produtores nacionais, através de seminários e cursos. Precisamos muito incentivar nossos festivais de cinema, o Chico e o Miragem”.

Nesse ano, o DOCTV versão tocantinense deve ser repartido pela FCT, convertendo-se em editais pra curtas com valor individual de R$ 30.000. O Fundo estadual de cultura está anunciado. Mas é através das associações, como a ATCV e o CIM, que a classe tem voz para intervir nesse processo que se inicia. “O ano passado foi atípico. A crise que atingiu o mundo respinga em todos os setores da sociedade. Nós, aqui no Tocantins, ainda vivemos outra crise, a transição política. Tudo isso fragiliza a sociedade como um todo. Pra gente não foi diferente. Mas tivemos alguns suspiros…”

Suspirar é bom, mas navegar é preciso. Já em alto-mar, a nova gestão da ATCV trouxe novidades a bordo. “Conseguimos um espaço no Salão do Livro, e vamos fazer a mostra do cinema tocantinense esse ano. O Salão do Livro* já está em sua sexta edição, e até agora o audiovisual tocantino ainda não havia marcado presença.”. Içamos as velas e que nos aguarde a terra firme.

 *6ª Feira do Livro do Tocantins

A MACAÚBA ESCUTA KID VINIL

O almanaque do rock ambulante e ruivo, Kid Vinil, esteve por aqui: Palmas ao Porkão, o herói da noite palmense. Quando existe vida inteligente na noite da cidade, ela se reune no Tendencies Music Bar. Kid Vinil é o Herói do Brasil, mas André Donzelli é o Herói de Claps Town: uma cidade bombasticamente ameaçada por duplas sertanejas e grupos de pagode dos quais poucos salvam, muito poucos.

O homo rock sapiens esteve em solo tocantinense em outubro, portanto, peço desculpas pelo delay. É como eu digo: o barco ainda vai de remo, mas o importante é navegar. Eu estava em Brasilha quando soube que o cara estaria em Palmas e não tive dúvida: voltei no dia do show, ainda que sacrificando o feriadão. Mas é claro que se todos os sacrifícios na minha vida fossem assim, eu não titubearia: cruz ni mim.

Antes do show do Kid, teve o show do Crazy Legs: rockabilly, hohoho. O Porkão já tinha trazidos todos eles antes, mas o que é bom pede bis. Foi uma noite suada e memorável. Coisas que só o Tendencies faz por você.

Para todas as outras, existem as listas. O Herói do Brasil soltou a sua dos melhores álbuns de 2009, e como tudo é convergência e sinergia, lá estavam os meninos do Móveis Coloniais de Acaju. Porque é o tipo de som onde não existem ruídos: MCA é algo pra se guardar do lado esquerdo do peito. Cidadão Instigado foi outro listado com justiça: as poucas vezes nesse 2009 em que eu corri em volta de praças foi graças ao som desses caras. Porque se correr os urubus pegam e se ficar eles só pensam em te comer. E eu ainda destacaria o Arnaldo Antunes, um dos melhores shows que vi no ano passado, na Brasiléia Desvairada: ie ie ie!

Vá lá que uma reles Macaúba não tem uma coleção de 20.000 discos, mas tem mais de 20.000 sinapses, oras. Eu também sou boy, sobrevivente aos 20 anos pós-Raul, e mando a minha lista de desejos pra 2010. 1,2,3 e já:


EDITAIS, meu senhores, uma esmolinha pelo amor de deus. 12.000 pra fazer um curta, por exemplo, é uma piada: mas pior que um humor negro é humor nenhum;

• APROVAÇÃO DO NOVO ESTATUTO DO CIM: porque é preciso levar a sério oFestival  Chico, um dos maiores patrimônios do cinema tocantinense;

ENCONTRO REDE NORTE DE CINECLUBES: a edificação e integração do movimento cineclubista no Toca e no norte do Brasil;


• A estréia de mais de uma (ou duas) peça (s) de teatro LOCAL (IS) na cidade;

A Festa da Macaúba, quando este querido blog completará um aninho de sobrevida;

• Muita paz, dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. E macaúbas a valer.


PRA CHEGAR AO CAROÇO: http://www.kidvinil.com.br/


A MACAÚBA, AS QUEBRADEIRAS E O CINECLUBISMO

Cine Mais Cultura e o novo cineclubismo brasileiro.


Em junho deste ano de 2009, mandamos um projeto para o Cine Mais Cultura, a pedido de Marcelo Silva: tendo a Public como produtora e a Associação de Mulheres Extrativistas do Babaçu como proponente. Já em agosto, eu e a Presidente da Associação estávamos em Belém pra sermos oficinandas. Porque o programa não lhe dá o peixe: dá a rede e ensina a pescar. E depois de catar algumas iscas, eu e Tharson Lopes (Canto das Artes) fomos para o Rio de Janeiro, onde aconteceu o Encontrão de Oficineiros, de 11 a 13 de dezembro.

A primeira oficina do Cine Mais Cultura realizou a proeza de juntar iniciativas cineclubistas de todos os estados da região norte. A segunda juntou iniciativas de todo o país. “Não me lembro de nenhuma Jornada que tivesse representação dos 26 estados e do DF”, foi o quê disse Antônio Claudino de Jesus, Presidente do CNC – Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros.

Este encontro foi organizado pra que em 2010 todos os estados brasileiros possam ter editais específicos. A meta do programa é que existam 2.000 cineclubes instalados no país até o final do próximo ano. E como a Jornada de Reorganização do Movimento Cineclubista (o passo decisivo na articulação do movimento após a ditadura militar e após a cisão em 84 por causa do filme em 35 mm) só apareceu em 2003; esta é uma meta ambiciosa e, ao mesmo tempo, completamente apropriada aos tempos de convergência digital.

Da lista do CNC de hoje participam 1.000 cineclubistas, e ao lado da Programadora Brasil, o Conselho é um dos braços que fortalecem o programa Cine Mais Cultura. A Programadora, por sua vez, distribui mais de 140 programas aos Cines. Contudo, o Cine Mais Cultura é um programa em construção. É uma articulação que emergiu das demandas de base: filmes são pra ser vistos. O que falta ao movimento, atualmente, é poder afirmar quantas pessoas vêem os filmes e quem são estas pessoas.

“Nunca tivemos uma base de dados confiável para o cinema comercial do Brasil, quiçá para o não-comercial”, foram as palavras do cineasta Roberval Duarte. Mas se todos os Cines enviarem seus relatórios detalhada e regularmente, esta base estará consistente o suficiente para o Cineclubismo se consolidar, finalmente, como pauta imediata das Políticas Públicas, em todas as esferas de governo. Portanto, durante a oficina, acesso e relatório eram as palavras-chave. Porque é tão necessário difundir quanto entender e aprimorar o processo de difusão.

“Não estou aqui pra escrever essa história. Estou aqui para articular que os estados a escrevam”, foi a pontuação feita por Sáskia Sá, Diretora de Memória do CNC. E, em resposta, os cineclubistas dos estados do norte ali presentes escreveram uma Carta em prol da articulação regional. A leitura da Carta foi gravada em vídeo e a entregamos ao Coordenador Executivo do Cine Mais Cultura, ao Secretário do Audiovisual e ao Presidente do CNC.

Estas três entidades se dispuseram a apresentar a Carta ao Ministério da Cultura e ao Ministério do Turismo. Uma vez que a Carta seja atendida, os cines buscarão parceiros estaduais: Fundações, ONGs, SESC, SEBRAE e a quem interessar possa. E em 2010, antes das eleições, será realizado o ENCONTRO REDE NORTE DE CINECLUBES, um evento inédito na história do cineclubismo regional.

Pois o novo cineclubismo brasileiro acredita que filmes são pra ser vistos, cineclubes são pra ser conhecidos e cineclubistas são pra ser ouvidos. “Gestão passa. Os exibidores ficam”, foram os dizeres de Rodrigo Bouillet, Coordenador de Rede do Cine Mais Cultura. Não teríamos dito melhor.

PRA CHEGAR AO CAROÇO: http://www.cinemaiscultura.org.br/


NOTAS MACAÚBAS:

Tharson Lopes e Betania Pontes estão à frente do Canto das Artes, projeto da

Associação Amigos da Cultura e do Meio Ambiente – Taquaruçu.

Desde 2004, plantando (e colhendo) cultura e ecologia.


O Chico e a Macaúba

O Chico está chegando! Dias 26, 27 e 28 de novembro, às 20 horas, no Cuíca (UFT).

Na sexta e no sábado de manhã, acontece o I Ciclo de Debates do Cinema Tocantinense de 8:30 às 11:30 horas no auditório B da UFT. No primeiro debate, o documentarista Marcelo Silva e o atual presidente da FCT, Sérgio Lorentino. No segundo debate, a estrela do Festival: Cícero Filho, o diretor de Ai que vida. À tarde, a partir de 16 horas, o cineasta estará na Public pra participar duma coletiva e à noite ele acompanha as exibições. No encerramento, o filme será exibido e as premiações acontecerão logo depois. Eu, Marcelinho e Tatiana Fagundes compomos o Júri Oficial.

Foram mais de 50 incrições de vídeos de todo o país. Muitas horas assistindo filme e correndo atrás de apoio. Uma canseira prazerosa, compartilhada com meu amigo Andrezão (Cinematoca). Essa é a oitava edição do Chico e, por conta disso, é uma referência dentre os festivais do norte. No diagnóstico setorial 2007 (indicadores 2006), o Festival Chico era o único festival do norte que já havia realizado seis edições.

Nesse sentido, agradecemos os seguintes apoios:

Public

Centro de Imagem e Som

Universidade Federal do Tocantins

Fundação Cultural do Tocantins

Redesat

Jovem Palmas

GM Turismo

Mumbuca

Mix Brasil



Isso é só um release. O textinho e videozinho marginais vem depois.

Uma coisa de cada vez porque o santo é de barro.


PRA CHEGAR AO CAROÇO: http://www.festivalchico2009.com.br/


MACAÚBA VINDOURA (sim, mais uma): ENTREVISTA COM CÍCERO FILHO


Notas Macaúbas:

André Araújo é documentarista, editor e produtor.

É também, como eu e Tati Fagundes, um dos coordenadores do CIM.

Dirigiu vários pocket movies e três curtas:

Under the rainbow

Enfim sós

Kitnet, o filme


Ela é ela e Macaúba é um côco.

Eu estava parindo esse filho cineclubista. É um frankenstrem. Fui ler o último impresso dos seminários estaduais, ávida pela história do cineclube no Tocantins.

Mas fiquei num lugar entre o nada e algo está pervertido aqui.

É claro que tem, é claro que teve, é vivo que terá. Qual produtor ou artista ou cinéfilo que residiu ou reside em, por exemplo, Palmas, que nunca manteve  um espaço de exibição audiovisual?

Pra não falar da produção. Um mundo que já beira os dez anos pra uns e os vinte anos pra outros. Quem está arquivando e organizando isso tudo?? Pra não falar de difusão, ou fomento. Que, atualmente, só acontece de 2 em 2 anos. Por aqui, eu digo.


Uma mulher grávida, no entanto, não deve se irritar. O filho pode nascer com cara de Macaúba.

Ou de Babaçu.


Que Deus te crie, meu filho.

MACAÚBAS VINDOURAS 2009/2010

A gente deve, não nega, e paga quando puder…


CINE BABAÇU – UM CINEMA DE BICO: a primeira vez que uma Macaúba do asfalto pisou as havaianas na terra  dos cocôs. Quem pode escrever artigo, escreve. Quem não pode evitar, faz a vida de todo um lugar responder a uma mesma idéia:

RAIMUNDA, A QUEBRADEIRA


Quem vê uma vez, não esquece, jamais. Seja o filme, seja a mulher.

Entrevista com KID VINIL, o Herói do Brasil. Pra voltar um pouco ao rock, que toda essa gestação cineclubista me deixou, assim, apreensiva.

E a cultura é, sobretudo, expansão, subversão, ou, vá lá, entretenimento.

Tudo feito com paixão tem algum cabimento.


A Macaúba visita o AGOSTO DE ROCK 2009

Agosto de rock 2009: o quê é que há, velhinho?

O blog começou com o pé direito, mas é preciso usar o esquerdo pra seguir adiante: por um descuido (alheio), nós perdemos o áudio do evento. Além disso, algumas peripécias pessoais, incluindo aí duas viagens. Mas navegar é preciso e a gente toca o barco: primeiro usando remo, depois motor.

Pra falar do Agosto de Rock, um dos mais tradicionais festivais de rock do Tocantins, é imperioso falar de Cássio Renato Cerqueira, o cara que desenvolve o projeto há seis anos: um recordista, portanto. Na filipeta de divulgação do evento, constam três fileiras de logos de apoio: a maioria dessas parcerias, ele foi buscar à pé, debaixo do sol indecente que os tocantinenses enfrentam nesses dias incandescentes.

Eu me hospedei na casa dele, sem nunca ter visto o cara na vida: já cheguei lavando as louças do café, pra honrar a hospedaria. Lá também estavam os músicos da FRAGOR, que chegaram um dia antes em Miracema, e puderam inclusive assistir à mostra de videoclipes e ao documentário O Mistério do Globo Ocular. Tiveram sorte.

Os IDIOTAS BERRANTES chegaram apenas no dia do evento, pela manhã, depois de dois dias de ônibus: os malucos se despencaram lá de Curitiba pra tocarem num festival em Miracema do Norte, uma cidade com menos de 30.000 habitantes, dissociada da capital principalmente por conta de cinco minutos a dez reais em cima duma barca. Uma barca que se assemelha ao Sarney: não tem mais nenhuma razão palatável pra estar ali.

Nesse ritmo, não chegamos às 100 cabeças. Perderam: até chover, choveu. E houve também o último show da formação mais duradoura dos CRÍTICOS LOUCOS, um rock pesado dos melhores: nem sempre eu conseguia manter a câmera estabilizada enquanto eu chacoalhava a cabeça, feito uma maluca. Felizmente, a câmera do Caio estava num tripé. Caio é a TRADE ROCK: uma iniciativa que, dentre outros insights, registra o rock independente do estado.

O show dos caras foi amputado ao meio por causa da marcação da polícia: o juiz tinha liberado o evento até 3 h, mas a insuspeita chuva de agosto alagou o cronograma. Enquanto o Miracaxi perturba a cidade até o dia raiar, o AGOSTO DE ROCK tem hora cravada pra desligar o som: um evento em área comercial cujo único B.O., em seis anos, foi um pedido do próprio produtor – o sobrinho dele dera em cima da mulher errada*.

Os IDIOTAS BERRATES subiram no palco depois dos CRÍTICOS LOUCOS e, como o fim já estava anunciado, alguns se precipitaram: parte do público voltou pra casa. Os outros músicos, em compensação, ficaram ao pé do palco, empolgando os caras: por mais que, vindo pra cá no pau-de-arara, empolgação seja o sobrenome deles. Mas pior que viver de ônibus, é viver sem bônus.

Eu, por exemplo, fui e voltei de carona: e o AGOSTO DE ROCK foi o dia, em toda a minha vida, que eu mais escutei elogios sobre os meus olhos. Tudo no respeito que rock é rock e micareta é micareta. Houve esta recompensa, dentre outras: eu nem pude conter a gargalhada quando não deu meia-hora de intervalo entre um elogio e outro. Daí, diziam que eu era metida, ou que era só o olho que salvava: tudo bem, eu pedi. E na ressaca do festival, era uma  Macaúba a única mulher dentre 17 roqueiros que participavam dum churrasco.

Eu amo o rock’n’roll.


*dados do Cássio.

PRA CHEGAR AO CAROÇO: http://www.myspace.com/agostoderockfestival

A Macaúba entrevista MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU

Móveis Coloniais de A(ra)caju:
quando ser jipe é mais interessante do que ser mercedez-benz.

Há dois anos, eu não ia num show dos MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU, um dos grupos mais suados que a secura do planalto central já pariu. Dois anos é tempo, mas passa num estalo. Eis que em Palmas eu pude rever o show, e por duas vezes consecutivas: pra mim, era o que havia de mais interessante pra ser feito na cidade – e no estado – embora muitos tenham preferido se entocar numa caverna e escutar estacas batendo, ou ir a uma praia e beber até atolar-se na areia.

Ocorre que eu vim sem escalas do Rio pra Palmas, e passei mais de ano sem pôr os pés em Brasília. No feriado de junho, eu fui lá: reencontrei muita gente querida, mas a cidade não me disse nada. Parecia que aquele lugar nunca fizera parte de mim, e vice-versa. Eu não sabia se estava sofrendo uma crise de identidade ou se estava diagnosticando um tipo de autismo. Eu só sabia que era estranho, demasiado estranho.

Aí bastou uma apresentação dos MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU pra que eu superasse o conflito. Finalmente, deos, eu senti saudade de Brasília – a cidade, e senti deleite em ser “candanga” – a origem. Tudo voltou ao meu subjetivo como num trailer de ação: UnB, Beirute, Criolina, Água Mineral! Obrigada por isso, estimados conterrâneos.

Por outro lado, eu fiquei indignada com a quantidade (mínima) de gente que participou do show mais empolgante que passou pela cidade esse ano – não desmerecendo ilustres passageiros como O Teatro Mágico, O Cordel do Fogo Encantado, Racionais, MV Bill, dentre outros. Acontece que os dois primeiros embarcaram na estrondosa publicidade da Feira do Livro*, e os dois últimos pegaram carona no poderoso boca-a-boca dos rappers do setor norte. No caso MÓVEIS, quando faltavam quinze dias para o show, eu mandei um email ao Xande: eu ouvira um burburinho sobre a passagem deles em Palmas…

Foi dessa indignação súbita e de uma intenção remota que nasceu A MACAÚBA. Mesmo tendo dormido quatro horas, quando o dia estava na metade, eu tinha uma inquietude tal que, ou eu produzia alguma coisa, ou eu teria um infarto. E como eu não tenho nem trinta anos, achei que era mais razoável ir até a PUBLIC pedir pra que a Zelma e o Marcelo, meus estimados capitães, apoiassem a minha viagem. Obrigada pelo barco: navegar é preciso.

Às 19 horas, cinco dos meninos MÓVEIS estavam na produtora. Sentei com eles na mesa do café e… dei-me conta do quanto era indecente a proposta que eu estava prestes a fazer: uma entrevista pra um blog que não existia. Não vou mentir: fiquei vermelha, suei, passei a mão sobre o rosto três ou quatro vezes. Até um analfabeto em linguagem corporal, chamaria uma ambulância pra mim. Eles, no entanto, toparam.

Já no estúdio, deu pra relaxar mais. A entrevista não foi longa (ao menos do ponto de vista sinestésico) porque eles ainda passariam o som; mas foi o suficiente pra provocar algumas questões e iluminar algumas idéias. Ali, eu quis encontrar os MÓVEIS que recordava o meu coração, e o título de A Maior Banda Independente do Brasil pouco diz à memória afetiva. O que me marcou foi a garra e a disciplina de um bando de caras talentosos que perseguiram um objetivo comum: a vontade de tocar e de fazer música.

Porque tocar e fazer música são coisas diferentes. MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU é um projeto cultural vibrante, que se mantém na frequência do novo milênio: vai além da excelência e da irreverência de uma banda com 10 integrantes cujo som foi batizado de “Feijoada Búlgara”. Entre eles, não existe comodismo: o processo colaborativo é o regime de trabalho, e o artista é também produtor (e designer, e editor, e faxineiro – se preciso for). Além disso, a eles não basta levar a sua música tanto aos lugares mais badalados quanto aos mais inóspitos: MÓVEIS CONVIDA os mais e os menos cultuados pra tocarem na sua casa, dividindo o mesmo palco (e o mesmo hotel – se possível for).

Finalmente, são o que são até embaixo d’água: no segundo show em Palmas, eles tocaram pra menos de 100 pessoas, e tocaram com a energia de sempre. É claro que foi necessário um intervalo; e a primeira tentativa de fazer aquela roda com o público não deu certo. Mas com muito rebolado, os meninos reverteram o jogo e aqueceram o público. Ao final, eu estava tão feliz quanto estive na apresentação de 2007: quando o suadíssimo coletivo MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU abriu o show do GOTAN PROJECT na Concha Acústica, tocando pra cerca de 18.000 pessoas*.  Pra quem a língua não é barreira, uma boca banguela tampouco haveria de ser.

*dados SESC-DF

*5° Salão do Livro do Tocantins


Notas Macaúbas:

Zelma Coelho e Marcelo Silva (Marcelinho) são a diretora geral e o diretor criativo, respectivamente, da agência Public.

Publicidade é o carro-chefe da empresa, mas a cultura SEMPRE fez parte do comboio.


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