Quando coordenar é cavalgar

No belíssimo documentário Uma Noite em 99, a produtora que manteve o Festival Chico vivo por 07 anos, Tatiana Fagundes, sintetizou uma missão: Eu não sou mãe do Chico, nem amante do Chico. Eu sou, assim, uma amiga do Chico.

Faço delas as minhas palavras, e, acrescento: sou a versão leonina – ainda que o sol acuse, no meio deste vinte e sete, go Amy, que o nascimento foi na Era de Aquário.
Raspas e restos nos interessam porque já se fez filme premiado (Festival do Cinema Brasileiro, talvez em 2006, possível também em 2005 – ou antes) com ponta de película, dialeto criado por ator e áudio, um emocionante áudio sob a perspectiva de um cego. Ouvindo o cotidiano ao redor, dentro da cidade pacata. Seria um livro? Seria um filme? Seria música?
Foi prêmio e aplausos. Presenciamos, todos nós, brasilienses ou não. A festa era da criatividade, quando usada com a sensibilidade.
Mas pra rolar a festa, tem que suar a camisa. No campo, se encontra de tudo um pouco e de todo o pouco um tanto. Porque não existe jogo de árbitro – do mesmo jeito que não existe jogo de arquibancada: existe a interação.


A 9ª edição do Chico foram 2 semanas de preparação cardíaca e pulmonar, 5 semanas de produção de guerrilha, 1 semana de atividades paranormais e 1 mês querendo ir embora do Tocantins. Mas, depois de algum tempo perdido, nós voltamos ao ar.
Em 2011, o evento foi realizado na FLIT, feira literária do Tocantins, o maior evento cultural do Estado, durante 08 dias, com quase 60 horas de programação matutina, vespertina e noturna, pra todos os tipos de público: mais ou menos 2.300 pessoas.
Aqui, neste momento exato. Temos, dez edições depois, um projeto.

Dito isso, vamos às manchetes, companheiros, pois abrimos as portas no dia 26 de julho e só as fechamos no dia 02 de agosto. Trouxemos 05 convidados Brasil: Hermes Leal, tocantinense de coração e editor sobrevivente – e perspicaz – da Revista de Cinema, publicação renomada para o segmento audiovisual. E, através dele, o projeto também contou com Antônio Leal, idealizador e organizador do Cine Foot, além de vice-presidente do Fórum dos Festivais e diretor no CBC – Congresso Brasileiro de Cinema. Mais: Cynthia Falcão, coordenadora de formação do CANNE – Centro Audiovisual Norte-Nordeste, e secretária da ABD Nacional – Associação de Documentaristas e Curta-Metragistas e do CBC; Rodrigo Bouillet, coordenador de rede da ação Cine Mais Cultura (SAV/MINC – Ministério da Cultura) e Rafael Rolim, coordenador nacional do Clube de Cinema Fora do Eixo.

Mostra Chiquinho, acervo Canto das Artes e Cine Miragem, teve público superior a 800 pessoas, exibindo filmes infanto-juvenis da Programadora Brasil, durante 07 dias, sempre 11 h e 15 h. Em apenas 03 dias a programação diurna se diferenciou: sábado, 30, dia do meio-ambiente, domingo, 31, dia do cineclubismo, e terça, 2, dia da educação para a cidadania e para a defesa das minorias: no qual exibimos, por 02 vezes, o mesmo filme banido no Acre – Eu não quero voltar sozinho.
Mostra Competitiva, voltada ao público adulto, abrigou 8 categorias de premiação, exibindo todo o tipo de produção existente no Tocantins, Publicidade, Jornalismo, Videoclipe, Curtíssimo, Videoremix e Curte, além de vídeos de gêneros e formatos diversos realizados em várias regiões do Brasil.
26 agentes culturais, com atuação comprovada e gosto pelo projeto, foram empregados durante os 02 meses de produção do Festival Chico 2011. Vínculo de empreendedorismo: é exatamente do que precisamos aqui. Associativismo e cooperativismo, organograma e documentos, vida bípede e vida digital: yes, we have.
Na realização de 2009, peitaram os custos 3 pessoas físicas/jurídicas: Public, Canto das Artes e CIM. Todas estas envolvidas na realização de 2011, bem como os mesmos e novos apoiadores. Foi quando recebemos o convite de, mais ou menos com o mesmo tempo, produzir quase o triplo de programação. Além de ocupar artisticamente o Memorial Coluna Prestes, desativado há tempos. Isso era uma coisa, ao mesmo tempo, empolgante e desesperadora.
Cuidar de um patrimônio requer o plantio de uma aliança e o cultivo de um antioxidante. É necessário, na mesma medida, que a atuação independente se formalize e o poder público se sensibilize. É nesta intercessão – e somente nela – o terreno no qual a gestão compartilhada, de trabalho, idéia, estratégia, torna-se possível. Bem como viável.

Vamos, então, aos números. Desde 2007, o Festival Chico é realizado anualmente sem interrupções. Posso falar, com propriedade, apenas das últimas 03 edições. Em 2008 o evento aconteceu no Cuica (UFT), um auditório majestoso, talvez o melhor que se disponha em Palmas, quando se pensa em tamanho e estrutura. Contudo, nós sabíamos que ou fisgávamos os universitários ou exibiríamos às moscas. Nos dois primeiros dias, realmente, estava presente a tchurma do cinema, e pouco público em geral – o mais surpreendente e o desafio maior. Mas, no último dia, fim de novembro, um domingo lá pelas 7 ou 8 horas: começou a aparecer gente de Taquaralto, das Aurenys, do Centro e da Vila União. Exibimos, e recebemos o diretor como convidado, do filme Ai que vida!.
Público total de mais ou menos 150 pessoas. Em 2010, quando o evento foi realizado um pouco antes, em relação a data do ano anterior, o público participante de igualmente 03 dias de evento superou 800 pessoas – e foi realizado em Taquaruçu, a quase 40 km de Palmas. Na ocasião, foi realizado um satisfatório festival cultural, sendo, neste, associadas linguagens diversas, música, cênicas e audiovisual. E recebemos 02 convidados Brasil. Não houve, porém, qualquer recurso da iniciativa pública.
Sem desmerecer, de forma alguma, os cartazes impressos pela UFT, bem como a recepção compreensiva e calorosa feita a Organização, pessoa física e aloprada formada por 01 ou 02 pessoas, em breve, deus ajude, por 05 ou 07 integrados.
Mas algumas determinações – nessa nova vida política em primeiro ano de gestão – vem para o bem. Acredito – e aposto – que eu e pelo menos 90% da equipe do Chico estamos mais que satisfeitos em assinar este acontecimento. O recurso ainda não chegou, mas isso é um conflito compartilhado, não uma ironia. Pra receber um recurso, foi necessário que se juntasse um coletivo firme, acima de qualquer suspeita. Guerreiros da cultura, amigos do Chico.
Vamos nos felicitar e ajudar daqui pra frente – especialmente nos próximos 30 dias. Enquanto o Partido Alto perdoa dali a demora no juntamento da papelada; do lado de cá a gente aguarda numa boa. Parceiro é parceiro. Pra poder crescer é imprescindível poder confiar.

Nóis é jeca, mas é joia. A revolução não será televisionada. Do luxo ao lixo, a gente faz é compartilhar. Lembrando-se, reparem, de eleger conselho deliberativo, consolidar organograma, discutir ações, inscrever em editais e trabalhar desesperadamente como se não houvesse amanhã. E, sobretudo, consciente de que houve muito ontem.

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