ANA PAULA SANTANA entrou estagiária no Ministério da Cultura em 2002 e hoje, nesse ponto de virada chamado 2010, a gestora de 30 anos é a Secretaria do Audiovisual no Ministério da Cultura do governo Dilma. São poucas as imagens dela no Google e quem buscou o audiovisual sempre vidrado nos diretores e roteiristas, dificilmente terá notado o nome dela nos anos adentro. A Secretaria não assinou filmes, mas assinou projetos e encarou funções múltiplas numa carreira meteórica. Chega a ser penoso imaginar como a jovem conseguiu fazer tanta coisa diferente e importante dentro do mundo que conhecemos como SAV. Em nove (ou dez?) anos ininterruptos, a brasiliense despontou como um ícone Y na gestão da cultura no Brasil. Não vou dizer que ela está fazendo história. Porque me parece que a mulher é a labareda disfarçada de fagulha da mais pura vanguarda. Mas isso só o tempo dirá.
Tampouco vou bancar de cult e dizer que conhecia à lupa o trabalho desta prodigiosa conterrânea. Bobagem. Quando se faz uso da primeira pessoa é melhor falar das impressões e dos sentimentos: onde se encontram as verdades que estão acima de qualquer suspeita.
Eu vi a olho nu Sílvio Da-Rin por duas vezes – num seminário estadual em Palmas e num encontro nacional de cineclubes no Rio. Cativou-me a simplicidade do homem e impressionou-me o eco longo que um tom assim pode irradiar. Um cara respeitado desde a base, no movimento, e admirado até os festivais mais pomposos. Newton Cannito foi o gestor entre Da-Rin e Anna Paula Santana. Não tive a chance de topar com ele por aí, mas tenho o prazer de conhecer duas pessoas queridas, Hermes Leal e Rebeca Damian, que noticiaram a alegria que é trabalhar com o roteirista-gestor. Já estava tudo bem encaminhando, eu pensava, e tentava mesmo trilhar esse caminho inspirador. Mas não contava com tantos buracos nas vias da capital mais jovem do Brasil.
Nem vale a pena falar dos pneus furados.
Voltemos às vias asfaltadas. Por três vezes, pude dividir algumas horas com Rodrigo Bouillet, 32, coordenador de rede do Cine Mais Cultura. Programa que começou há três anos mais ou menos e com uma equipe de 03 (três) pessoas. No primeiro ano resgataram literalmente* quase 200 (duzentos) cineclubes no Brasil. Atualmente, somando estes cines aos inaugurados, são mais de 800 (oitocentos) no país. A equipe dobrou (ou triplicou?) se entendida como “funcionários” (ou contratados) do MinC. Mas quando se entende a rede de trabalho e discussão criada com o programa, chegamos a número que beira os 2.000 e se espalha por todos os Estados brasileiros.
*resgatando de avião e de barco, de ônibus e a pé, nos quatro cantos e no recheio também desse Brasil gigante.
Simbolicamente, suspeito, o mesmo tipo de jornada na qual se empenhou a Secretaria Anna Paula, mas adentro dessa SAV instigante. Não temos empresários de facebook, mas já temos gestores de ponta: eles estão ao redor dos 30, não usam vestidos ou ternos de corte fino, usam “cara”, “velho” e “bicho” como interjeições recorrentes e podem colecionar desde emails a tatuagens. Estão espalhados com roupagens diversas pelas redes sociais e transitam estratégicos e lúdicos, ao mesmo tempo, entre a oligarquia e o povo.
Porque a invenção (ou contracultura, escolha aí) só acontece no confronto do latifúndio com a aldeia. Nesse ínterim vibrante, ora tenso, ora fluído. Nessa gangorra com a qual aramos a terra política.
Alguns roteirizam, produzem e dirigem filmes. Alguns organizam, produzem e sinalizam cineclubes. Alguns idealizam, produzem e pedem carona para editais. São todos elos fundamentais da cadeia produtiva do audiovisual no Brasil e cuja integração mais ou menos afinada pode determinar o alcance das raízes que (de)marcam o setor. It’s New Age, fellas.


