Pra economizar a voz mas ressoar o discurso

 

Qual foi o click  pra fazer a 1a Mostra Miragem?

E o que ainda lhe faz persistir?

Tive o privilégio de nascer em uma pequena cidade do interior onde havia uma sala comercial de cinema. E toda essa minha paixão e compreensão acerca do cinema foi uma semente plantada no escurinho do Cine Operário (extinta sala de exibição de Miracema). Por isso, desde o seu fechamento, assumi (automaticamente) a responsabilidade de não deixar essa cultura cinematográfica morrer na minha cidade (…) E toda essa trajetória, desde as inesquecíveis matinês do Cine Operário, foi embrião para a idealização de um dos mais promissores festivais de cinema e vídeo do interior do Brasil: a mostra Miragem (que há 5 anos promove, na “pequena e pacata” Miracema, o fomento e a divulgação da produção cinematográfica brasileira, como também homenageia e revela talentos locais). Agora o motivo que ainda nos faz persistir durante todos esses longos anos de dedicação é pressentir que, apesar dos pesares, a nossa inquestionável contribuição ao desenvolvimento cinematográfico de nossa região nos reservará, em algum momento da história, o nosso merecido lugar ao sol (assim, simplesmente).

Em algum ano, você não tirou do seu bolso? Quando (e como) acha que o projeto se tornará sustentável?

Enquanto não tivermos políticas públicas de incentivo à divulgação e ao fomento da produção audiovisual em nosso estado, os produtores culturais vão continuar a tirar dinheiro do bolso para produzir os seus eventos. O fato é que essa irresponsabilidade do poder público acabou gerando uma situação cômoda para os gestores de cultura, porque eles sabem que de alguma forma o produtor, por ser independente, vai (de qualquer forma) produzir o seu evento (mesmo auto-patrocinando), por isso esses gestores não tem crise de consciência, dormem tranqüilos (sonhando com ovelhinhas pulando a cerca). Porque o que está em jogo nessa negligência irresponsável são os eventos mais significativos para o nosso desenvolvimento cultural, alguns reconhecidos nacionalmente, como o festival Chico e o Miragem. Pra vocês terem uma idéia da gravidade do assunto, hoje em dia nosso único horizonte de sustentabilidade são os editais de incentivo à cultura do Governo Federal. Agora chegar a ser contemplado em um edital nacional “são outros quinhentos” (apesar da diversidade e da descentralização dos editais, algo nunca visto antes na história deste país). Sinceramente, se nesse novo governo não tivermos um Secretário de Cultura ou um Presidente da Fundação Cultural que se atenha a essa delicada condição a que estão submetidos os festivais de cinema do Tocantins, em curto prazo a nossa situação será insustentável (que nem paixão agüenta!).

Ao longo dos anos, quantas pessoas mais ou menos se envolveram com o projeto? Quem são os principais (e mais persistentes)?

Vários voluntários já transitaram na equipe de produção do Miragem (isso é rotineiro numa produção independente). Na primeira edição, quando o Miragem ainda era uma das atividades paralelas do Agosto de Rock, os filmes exibidos na mostra pertenciam ao acervo do CIM – Centro de Imagem e Som, entidade responsável pela realização do mais antigo festival de cinema e vídeo do Tocantins, o Chico. Inclusive a fundadora do festival, a Tatiana Fagundes, então produtora do Chico, foi uma das pessoas que contribuíram para o processo de implantação do Miragem. Nossa relação era de muita confiança, por isso mesmo fui convidado a trabalhar na produção do festival Chico, em 2005 e 2006, e pela primeira vez fui pago pelos meus serviços (e bem pago!). Não conheço ninguém do audiovisual tocantinense que não reconheça o papel fundamental que teve a Tatiana Fagundes para alavancar a produção audiovisual em nosso estado. Outra pessoa muito importante para o Miragem foi o então diretor do campus de Miracema, o Profº Drº Pedro Albeirice. Seria uma grande injustiça não reconhecer a grande força que este cidadão deu à mostra miracemense em sua fase de transição, quando saímos das ruas e praças e fomos para o auditório da UFT.  Pessoalmente éramos muitos diferentes, ele extremamente religioso e eu um roqueiro punk de rédeas soltas (kkkkk).  O cara valorizava tanto o evento que teve momento que chegou a tirar dinheiro do seu próprio bolso. Albeirice foi também Mestre de Cerimônias na 2ª e 3ª edição da mostra (lindos tempos professor, obrigado!). Depois do Profº Albeirice, mais três pessoas assumiram a função de Mestre de Cerimônia do Miragem, Karina Francis, Alex Cerqueira e, atualmente, Thiago Ramos (o Palhaço Triste – impecável! Lindo! Lindo! hehehe). Outra figura que deu significativa contribuição ao Miragem foi o então Presidente da ATCV, o Luiz Pires. Ele fazia os “corres” em Palmas, indo de gabinete em gabinete, fazendo a intermediação entre o poder público e aquelas figuras “bizarras” que compunham a produção do Miragem (imagine: Cássio sem chapinha e a Dogão careca? Kkkkk). O bacana dessa intermediação do Luiz é que dessa pedra sempre saia leite (Pouco, mas saía! Quem acompanhou as primeiras edições do Miragem tá ligado na força que o Luiz Pires deu). O João Paulo, da Mansur – Comunicação e Marketing, que produziu o primeiro VT da mostra e também outros trabalhos. O Caio Brettas, da Trade Rock, que desde 2008 é parceiro da mostra (é dele a produção da maioria do material audiovisual da mostra, inclusive os VT’s de 2008 a 2010). A jornalista Lidiane Moreira, de Gurupi, que criou o blog Miragem, ajudando a dar visibilidade nacional à mostra. E, pra fechar essa resumida lista, o Marcelinho, da agência Public, que desde 2007 vem nos apoiando de forma significativa, exercendo a função que deveria ser do poder público, mas vamos finalizar essa resposta por aqui porque senão essa entrevista vai ficar chata pra caralho (que nem a cerimônia de entrega do Oscar, quando os vencedores citam infinitos nomes de agradecimentos, ah, nem! kkkkkk).

Qual a relação da Mostra Miragem e do Cine Miragem?

Obviamente toda! Um é fruto (literalmente) do outro! E esse mérito foi alcançado devido à nossa instigante trajetória que cai como luva para um belo roteiro de cinema, como também nos possibilita a concorrer editais de incentivo à cultura, de igual para igual, com outros importantes projetos nacionais. Foi isso que aconteceu quando fomos contemplados, em parceria com a secretaria de educação e cultura de Miracema, pelo edital Cine Mais Cultura, do Ministério da Cultura (que visa estruturar espaços para exibição de filmes brasileiros, em DVD, do catálogo da Programadora Brasil, com equipamento de projeção digital e oficina de capacitação cineclubista. Mais informações: http://www.cinemaiscultura.org.br). O Cine Miragem funciona (em caráter provisório), todas as sextas, sempre às 19:30, no Salão Paroquial, localizado na primeira praça de Miracema. O GRANDE problema do Salão Paroquial é que se morrer alguma pessoa “de certa importância” na cidade a sessão terá que ser cancelada, porque o salão também é palco para velórios (rsrsrs). E a primeira vez que isso aconteceu foi no dia do lançamento nacional do filme “Terra Deu, Terra Come” (que ironia, kkkkk), quando fizemos a maior campanha de divulgação de todos os tempos: mídia volante, cartazes, panfletos, enxurradas de scraps na internet… Mas quando chegou na sexta –feira, o dia da sessão, recebemos o comunicado fúnebre de que teríamos que cancelar a sessão, porque haveria um velório no mesmo dia. Que deus me perdoe, mas nessas condições, fica complicado trabalhar a formação de público. Demanda, nós temos! Comprovamos isso com a realização da última edição da mostra Miragem, que foi um sucesso estrondoso de público! A diferença é que o Miragem 2010 foi realizado num auditório luxuoso, espaçoso e todo climatizado (digno de um templo para exibições cinematográficas). Pra vocês terem uma idéia, a sala Severino Lopes Teixeira foi inaugurada em agosto de 2009, ainda sem a estrutura (veja o vídeo da inauguração no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=AJjCkFzPY1M) e hoje o cinema virou um ninho de pombos, devido tamanho abandono (sinceramente, não podemos mais ser coniventes com essa absurda situação, porque é um desrespeito à sétima arte e à nossa própria história audiovisual).

Quais os fatores responsáveis pelo aumento de público? Foram quantas sessões e em quantos lugares?

Apesar da significativa falta de recursos, que quase impossibilitou a sua realização em 2010, a produção da mostra ainda teve a ousadia de expandir o Miragem para mais 05 cidades do estado: Tocantínia, Miranorte, Paraíso, Palmas e Gurupi. Contrariando alguns “especialistas” (aiaiai) que apontavam essa experiência como um ato de grande risco, que culminaria no fracasso da mostra miracemense (porque a lógica desses caras é o seguinte: eles não te patrocinam, aí você resolve, OBVIAMENTE, realizar o seu evento, cumprir suas responsabilidades, sua agenda anual… Aí eles ficam somente aguardando a desgraça bater na porta do atrevido). Ledo engano, porque o resultado dessa ousada experiência surpreendeu até mesmo a produção da mostra, atingindo um público de 2.137 espectadores.

O que você espera pro projeto em 2011?

Expandir o projeto para mais cidades do estado, inclusive por algumas em que já havíamos realizado exibições, através da Mostra Itinerante Miragem. Muitas delas já se manifestaram, cobrando participação na mostra do próximo ano. Vamos ampliar o projeto para mais escolas e aprimorar (didaticamente) a nossa relação com os alunos.. Em suma, vamos propagar cada vez mais o cinema, principalmente o curta-metragem, pelos quatro cantos do Tocantins!!!  Outra expectativa para 2011 é que o próximo governo resolva essa falta de comunicação entre a Fundação Cultural do Tocantins e/ou a Secretaria de Cultura com os 03 festivais de cinema existentes no estado. Poxa-vida, tem evento aí chegando à casa dos 10 anos e até hoje o estado não tem uma política voltada para o incentivo desses festivais (isso é muito vergonhoso!!!). E o mais importante: vamos patrocinar esses festivais (PELO AMOR DE DEUS!!!).  No mais, feliz 2011: que seja um ano cinematográfico a todos!!!

Cássio Renato Cerqueira

E a gente vai levando essa vida… é melhor ser alegre que ser triste!

pra economizar o punho e esbanjar o prumo

Se Correr o Bicho Pega

Juraildes da Cruz

 

Eu pensei correr de mim
Mas aonde eu ia eu tava
Quanto mais eu corria
Mais pra perto eu chegava

Quando o calcanhar chegava
O dedão do pé já tinha ido
Escondendo eu me achava
E me achava escondido
Só sei que quando penso que sei
Já não sei quem sou
Já enjoei de me achar no lugar
Que aonde eu vou eu tô

Eu pensei correr de mim…

Tô pensando tirar férias de mim
Mas eu também quero ir
Só vou se minha sombra não for
Se ela for eu fico aqui
Um dia desses sonhando
Eu pensei: não vou me acordar
Vou me deixar dormindo
E levanto pra comemorá

Eu pensei correr de mim…

O espelho me disse
Só tem um jeito pro assunto
Não adianta querer morrer
Porque se morrer vai junto
Se correr o bicho pega
Mas se limpar o bicho some
Tem que desembaraçar
O novelo da vida do homem

 

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