O Chico está chegando! Dias 26, 27 e 28 de novembro, às 20 horas, no Cuíca (UFT).
Na sexta e no sábado de manhã, acontece o I Ciclo de Debates do Cinema Tocantinense de 8:30 às 11:30 horas no auditório B da UFT. No primeiro debate, o documentarista Marcelo Silva e o atual presidente da FCT, Sérgio Lorentino. No segundo debate, a estrela do Festival: Cícero Filho, o diretor de Ai que vida. À tarde, a partir de 16 horas, o cineasta estará na Public pra participar duma coletiva e à noite ele acompanha as exibições. No encerramento, o filme será exibido e as premiações acontecerão logo depois. Eu, Marcelinho e Tatiana Fagundes compomos o Júri Oficial.
Foram mais de 50 incrições de vídeos de todo o país. Muitas horas assistindo filme e correndo atrás de apoio. Uma canseira prazerosa, compartilhada com meu amigo Andrezão (Cinematoca). Essa é a oitava edição do Chico e, por conta disso, é uma referência dentre os festivais do norte.
Nesse sentido, agradecemos os seguintes apoios:
Public
Universidade Federal do Tocantins
Fundação Cultural do Tocantins
Redesat
Jovem Palmas
GM Turismo
Mumbuca
Mix Brasil
Isso é só um release. O videozinho com aquele textinho marginal vem depois.
Eu estava parindo esse filho cineclubista. É um frankenstrem. Fui ler o último impresso dos seminários estaduais, ávida pela história do cineclube no Tocantins.
Mas fiquei num lugar entre o nada e alguma coisa está pervertida aqui.
É claro que tem, é claro que teve, é vivo que terá. Qual produtor ou artista ou cinéfilo que residiu ou reside em, por exemplo, Palmas, que nunca manteve um espaço de exibição audiovisual?
Pra não falar da produção. Um mundo que já beira os dez anos pra uns e os vinte anos pra outros. Quem está arquivando e organizando isso tudo?? Pra não falar de difusão, ou fomento.
Que, atualmente, só acontece de 2 em 2 anos. Por aqui, eu digo.
…
Uma mulher grávida, no entanto, não deve se irritar. O filho pode nascer com cara de Macaúba.
Ou de Babaçu.
Que Deus te ouça, meu filho.
…
EM NOVEMBRO:
UM CINEMA DE BICO: a primeira vez que uma Macaúba do asfalto pisou as havaianas na terra dos cocôs. Quem pode escrever artigo, escreve. Quem não pode evitar, faz a vida de todo um lugar responder a uma mesma idéia:
RAIMUNDA, A QUEBRADEIRA.
Quem vê uma vez, não esquece jamais.
…
Vem ai também a entrevista com KID VINIL, o Herói do Brasil. Pra voltar um pouco ao Rock, que toda essa gestação cineclubista me deixou, assim, apreensiva.
E a cultura é, sobretudo, expansão, subversão, ou, vá lá, entretenimento.
O blog começou com o pé direito, mas é preciso usar o esquerdo pra seguir adiante: por um descuido (alheio), nós perdemos o áudio do evento. Além disso, algumas peripécias pessoais, incluindo aí duas viagens. Mas navegar é preciso e a gente toca o barco: primeiro usando remo, depois motor.
Pra falar do Agosto de Rock, um dos mais tradicionais festivais de rock do Tocantins, é imperioso falar de Cássio Renato Cerqueira, o cara que desenvolve o projeto há seis anos: um recordista, portanto. Na filipeta de divulgação do evento, constam três fileiras de logos de apoio: a maioria dessas parcerias, ele foi buscar à pé, debaixo do sol indecente que os tocantinenses enfrentam nesses dias incandescentes.
Eu me hospedei na casa dele, sem nunca ter visto o cara na vida: já cheguei lavando as louças do café, pra honrar a hospedaria. Lá também estavam os músicos da FRAGOR, que chegaram um dia antes em Miracema, e puderam inclusive assistir à mostra de videoclipes e ao documentário O Mistério do Globo Ocular. Tiveram sorte.
Os IDIOTAS BERRANTES chegaram apenas no dia do evento, pela manhã, depois de dois dias de ônibus: os malucos se despencaram lá de Curitiba pra tocarem num festival em Miracema do Norte, uma cidade com menos de 30.000 habitantes, dissociada da capital principalmente por conta de cinco minutos a dez reais em cima duma barca. Uma barca que se assemelha ao Sarney: não tem mais nenhuma razão palatável pra estar ali.
Nesse ritmo, não chegamos às 100 cabeças. Perderam: até chover, choveu. E houve também o último show da formação mais duradoura dos CRÍTICOS LOUCOS, um rock pesado dos melhores: nem sempre eu conseguia manter a câmera estabilizada enquanto eu chacoalhava a cabeça, feito uma maluca. Felizmente, a câmera do Caio estava num tripé. Caio é a TRADE ROCK: uma iniciativa que, dentre outros insights, registra o rock independente do estado.
O show dos caras foi amputado ao meio por causa da marcação da polícia: o juiz tinha liberado o evento até 3 h, mas a insuspeita chuva de agosto alagou o cronograma. Enquanto o Miracaxi perturba a cidade até o dia raiar, o AGOSTO DE ROCK tem hora cravada pra desligar o som: um evento em área comercial cujo único B.O., em seis anos, foi um pedido do próprio produtor – o sobrinho dele dera em cima da mulher errada*.
Os IDIOTAS BERRATES subiram no palco depois dos CRÍTICOS LOUCOS e, como o fim já estava anunciado, alguns se precipitaram: parte do público voltou pra casa. Os outros músicos, em compensação, ficaram ao pé do palco, empolgando os caras: por mais que, vindo pra cá no pau-de-arara, empolgação seja o sobrenome deles. Mas pior que viver de ônibus, é viver sem bônus.
Eu, por exemplo, fui e voltei de carona: e o AGOSTO DE ROCK foi o dia, em toda a minha vida, que eu mais escutei elogios sobre os meus olhos. Tudo no respeito que rock é rock e micareta é micareta. Houve esta recompensa, dentre outras: eu nem pude conter a gargalhada quando não deu meia-hora de intervalo entre um elogio e outro. Daí, diziam que eu era metida, ou que era só o olho que salvava: tudo bem, eu pedi. E na ressaca do festival, eu era a única mulher dentre 17 homens que participavam dum churrasco.
Móveis Coloniais de A(ra)caju:
quando ser jipe é mais interessante do que ser mercedez-benz.
Há dois anos, eu não ia num show dos MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU, um dos grupos mais suados que a secura do planalto central já pariu. Dois anos é tempo, mas passa num estalo. Eis que em Palmas eu pude rever o show, e por duas vezes consecutivas: pra mim, era o que havia de mais interessante pra ser feito na cidade – e no estado – embora muita gente tenha preferido se entocar numa caverna e escutar estacas batendo, ou ir a uma praia e beber até atolar-se na areia.
Ocorre que eu vim sem escalas do Rio pra Palmas, e passei mais de um ano sem pôr os pés em Brasília. No feriado de junho, eu fui lá: reencontrei muita gente querida, mas a cidade não me disse nada. Parecia que aquele lugar nunca fizera parte de mim, e vice-versa. Eu não sabia se estava sofrendo uma crise de identidade ou se estava diagnosticando um tipo de autismo. Eu só sabia que era estranho, demasiado estranho.
Mas bastou uma apresentação dos MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU pra que eu superasse o conflito. Pela primeira vez, em 18 meses, eu senti saudade de Brasília – a cidade, e senti deleite em ser “candanga” – a origem. Tudo voltou ao meu subjetivo como num trailer de ação: UnB, Beirute, Criolina, Água Mineral! Obrigada por isso, estimados conterrâneos.
Por outro lado, eu fiquei indignada com a quantidade (mínima) de gente que participou do show mais empolgante que passou pela cidade esse ano – não desmerecendo ilustres passageiros como O Teatro Mágico, O Cordel do Fogo Encantado, Racionais, MV Bill, dentre outros. Acontece que os dois primeiros embarcaram na estrondosa publicidade da Feira do Livro, e os dois últimos pegaram carona no poderoso boca-a-boca dos rappers do setor norte. No caso MÓVEIS, quando faltavam quinze dias para o show, eu mandei um email ao Xande: eu ouvira um burburinho sobre a passagem deles em Palmas…
Foi dessa indignação súbita e de uma intenção remota que nasceu A MACAÚBA. Mesmo tendo dormido quatro horas; às 12 horas do sábado eu estava de pé, com uma inquietude tal que, ou eu produzia alguma coisa, ou eu teria um infarto. E como eu não tenho nem trinta anos, achei que era mais razoável eu ir a PUBLIC pedir pra que a Zelma e o Marcelo, meus estimados capitães, apoiassem a minha viagem. Obrigada pelo barco: navegar é preciso.
Às 19 horas, cinco dos meninos MÓVEIS estavam na produtora. Sentei com eles na mesa do café e… dei-me conta do quanto era indecente a proposta que eu estava prestes a fazer: uma entrevista pra um blog que não existia. Não vou mentir: fiquei vermelha, suei, passei a mão sobre o rosto três ou quatro vezes. Até um analfabeto em linguagem corporal, chamaria uma ambulância pra mim. Eles, no entanto, toparam.
Já no estúdio, deu pra relaxar mais. A entrevista não foi longa (ao menos do ponto de vista sinestésico) porque eles ainda passariam o som; mas foi o suficiente pra provocar algumas questões e iluminar algumas idéias. Ali, eu quis encontrar os MÓVEIS que recordava o meu coração, e o título de A Maior Banda Independente do Brasil pouco diz à memória afetiva. O que me marcou foi a garra e a disciplina de um bando de caras talentosos que perseguiram um objetivo comum: a vontade de tocar e de fazer música.
Porque tocar e fazer música são coisas diferentes. MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU é um projeto cultural vibrante, que se mantém na frequência do novo milênio: vai além da excelência e da irreverência de uma banda com 10 integrantes cujo som foi batizado de “Feijoada Búlgara”. Entre eles, não existe comodismo: o processo colaborativo é o regime de trabalho, e o artista é também produtor (e designer, e editor, e faxineiro – se preciso for). Além disso, a eles não basta levar a sua música tanto aos lugares mais badalados quanto aos mais inóspitos: MÓVEIS CONVIDA os mais e os menos cultuados pra tocarem na sua casa, dividindo o mesmo palco (e o mesmo hotel – se possível for).
Finalmente, são o que são até embaixo d’água: no segundo show em Palmas, eles tocaram pra menos de 100 pessoas, e tocaram com a energia de sempre. É claro que foi necessário um intervalo; e a primeira tentativa de fazer aquela roda com o público não deu certo. Mas com muito rebolado, os meninos reverteram o jogo e aqueceram o público. Ao final, eu estava tão feliz quanto estive na apresentação de 2007: quando o suadíssimo coletivo MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU abriu o show do GOTAN PROJECT na Concha Acústica, tocando pra cerca de 18.000 pessoas*. Pra quem a língua não é barreira, uma boca banguela tampouco haveria de ser.